BORDALEIROS: COBRAS E LARGATOS EXPOSIÇÃO INAUGURA NO DIA 31 NA SALA ADALICE ARAÚJO

Na semana que vem, inaugura uma exposição intitulada: Bordaleiros: cobras e lagartos, na Sala Adalice Araújo, MAC - Museu de Arte Contemporânea na sede da SEEC, Rua Ébano Pereira, 240 - Centro. 



Bordaleiros: cobras e lagartos

“Se ele é humilde, manso (...) também é sensível e arisco.”

Bordalo, sobre o Zé-Povinho

Uma ironia que beira a escatologia, um senso estético que dialoga com antigas escolas, uma procura pelo novo: eis três características importantes da obra de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).

A ironia é uma marca curiosa da vida de Bordalo, ora vinda dele mesmo: caricaturista, jornalista polêmico, ilustrador político. A ironia presente na obra gráfica dele ganha as três dimensões na cerâmica, e pode ser vista tanto nas personagens que ele criou, em particular o Zé-Povinho, como nas obras mais elaboradas, como o famoso “jarro Beethoven”, peça imensa e ricamente trabalhada, que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Ora a ironia entra como penetra: o vaso em questão foi trazido ao Brasil, ninguém quis comprá-lo, ele o rifou, o número sorteado não tinha sido vendido, o vaso acabou doado ao governo brasileiro e foi jogado de um lado a outro até ganhar um local seguro onde está até hoje. A história do jarro, assim como a história de Bordalo, daria um bom livro repleto de situações picarescas.

Já o diálogo com outras escolas ocorre devido ao olhar perscrutador de Bordalo, interessado em diferentes técnicas, estilos, influências: um vaso (um centro de mesa) seu lembrará o rigor monotônico oriental (a despeito de aparecer nesse mesmo vaso um animal enrodilhado), galos e galinhas remeterão à arte popular (nada simplista, diga-se de passagem) e sopeiras ricamente trabalhadas farão menção ao (por vezes) rebuscado exagero da época dos Luíses franceses. O curioso – e o fascinante – na produção artística de Bordalo é justamente a mescla disso tudo ou ainda a simples coexistência disso tudo.

A novidade – já que aqui e ali Bordalo foi criticado como um mero copiador de técnicas e estilos locais – está em suas pesquisas pessoais, que envolveram viagens técnicas. A chamada “pasta branca vidrada” chega ao ápice em Caldas da Rainha com o olhar multicultural e a autêntica qualidade criadora de Bordalo, o que faz dele um dos grandes artistas do final do século XIX em Portugal.

Foi em 1883 que Rafael Bordalo Pinheiro e outros acionistas decidiram criar a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Ele seria um diretor criativo, também responsável pelos quesitos técnicos. A fábrica, de certo modo, dá sequência a um tipo de fatura comum em Caldas, chamado “à Palissy das Caldas”. Bernard Palissy tinha ficado famoso na França do século XVI por transportar para objetos cotidianos elementos naturais inusitados, invertendo, inclusive, a ideia de praticidade que tais objetos deveriam ter. Palissy não havia inventado nenhuma forma nova de naturalismo tampouco criado a possibilidade de produzir peças antropomórficas, peças com animais e plantas ou ainda peças com seres mitológicos esvoaçantes. Isso era tão antigo como a própria história dos homens. Mas Palissy criara um estilo que, sem uma explicação muito clara, foi parar em Portugal – e depois relido e reinventado, de um modo que chega às raias do delírio, por Bordalo.

A reinvenção de Bordalo está no modo como ele mescla uma vontade popular com um gosto erudito, transportando para o barro vidrado uma longa lista de personagens folclóricos (alguns inventados por ele mesmo) que eram o rosto de Portugal. Seu talento de desenhista ganha uma forma inusitada nas peças, sejam as figuras populares (que se transformam em paliteiros, vasos para óleo, peças “de suspensão”, sejam os azulejos (numa mescla em diálogo aberto com o movimento Arts and Crafts inglês, com o que os críticos entendem como art nouveau, com o grotesco de longa tradição na Europa, este com várias facetas, desdobramentos e releituras) e demais peças para casa, como floreiras e mísulas.

Haveria muitas maneiras de dividir a obra de Bordalo, fazendo oposições ou grupos: o irônico/humor e o “sério”, a criação bidimensional e a tridimensional, as peças utilitárias e as não-utilitárias, as peças mais artísticas e as mais comerciais, entre outras possibilidades. Cada uma delas traz soluções para o entendimento da obra dele, mas também problemas, já que é difícil, por exemplo, separar peremptoriamente a ironia marcante dele (e de sua visão de mundo, altamente politizada) e aquilo que não é abertamente irônico (como o caso dos azulejos que ele também produziu, um tipo de trompe l’oeil arrojado e de complexa manufatura).

Bordalo esteve no Brasil em três situações distintas (entre 1875 e 1899) e hoje suas peças são vendidas em lojas de grife em endereços sofisticados de Lisboa ou São Paulo.

Glauco Menta, colecionador e conhecedor das pesquisas estéticas de Bordalo, teve a ideia de convidar artistas ceramistas de modo que cada um relesse o imaginário criativo de Bordalo. Cada um escolheu um viés de diálogo com o artista português (a ironia, o grotesco, a tradução de expressões linguísticas como “cobras e lagartos” para objetos, o zelo com a técnica) e produziu de um a três trabalhos, trazendo para os tempos atuais um certo modo de ver, sentir, produzir cerâmica. Obviamente, as técnicas são distintas – e isso fazia parte do processo e do desafio proposto pelo curador. Aqui, a argila é predominante, os esmaltes são outros, os fornos também. 

O que o espectador verá é uma conversação, que cria uma ponte, primeiro entre os artistas atuais e Bordalo, e depois entre Bordalo e artistas anteriores, os de Caldas da Rainha, e depois outra conversa, entre estes e outros, ainda mais antigos, como uma grande corrente que se perde lá num passado remoto, o próprio passado do fazer cerâmico. 

                                                                                Benedito Costa, professor e crítico de arte

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