MOMENTO SAÚDE E BEM-ESTAR: Depois da harmonização “visível”, estética busca um novo resultado

MOMENTO SAÚDE E BEM-ESTAR: Depois da harmonização “visível”, estética busca um novo resultado: não parecer  ter sido feita

Naturalidade, preservação dos traços e capacidade de dizer “não” ganham espaço nos consultórios e colocam em discussão uma mudança de expectativa dos pacientes diante dos procedimentos faciais 

Por muito tempo, lábios volumosos, mandíbulas marcadas, maçãs do rosto projetadas e contornos acentuados se tornaram sinais facilmente reconhecíveis de intervenções estéticas. A repetição dessas características ajudou a construir até uma espécie de rosto da harmonização”. Agora, um movimento na direção oposta começa a ganhar força nos consultórios: pacientes que querem melhorar a aparência sem que o procedimento seja percebido.

A mudança não representa o fim dos preenchimentos ou de outras intervenções faciais. O que muda é a expectativa sobre o resultado. Em vez de transformar o rosto a partir de um modelo de beleza, cresce a valorização de procedimentos capazes de preservar características individuais, respeitar o envelhecimento e evitar que diferentes pacientes terminem com feições semelhantes.

Para o médico Eduardo Santos Lima, presidente nacional da Associação Brasileira de Medicina Estética (ABME) e com 20 anos de atuação na área, o fenômeno também é uma resposta aos excessos que ganharam visibilidade nos últimos anos.

“Quando o procedimento começa a chamar mais atenção do que a própria pessoa, é preciso questionar a indicação. A estética medica não deveria produzir rostos em série. Cada paciente tem uma anatomia, uma história de envelhecimento e características que precisam continuar sendo reconhecidas depois de qualquer intervenção”, afirma Santos Lima.

A discussão chega em um momento em que procedimentos estéticos estão cada vez mais presentes no cotidiano e nas redes sociais. Filtros, imagens editadas, influenciadores e transformações exibidas em vídeos curtos ampliaram o repertório de referências levado pelos pacientes aos consultórios. Para Lima, essa exposição também tornou mais evidente o risco de transformar tendências em objetivos individuais.

“Hoje o paciente chega muito mais informado, mas também muito mais exposto a imagens que não necessariamente correspondem à realidade. Um lábio, uma mandíbula ou um formato de rosto que funciona como referência nas redes sociais não pode virar uma prescrição. O papel do médico é avaliar aquela pessoa, e não reproduzir uma imagem”, explica.

Naturalidade não significa simplesmente fazer menos
A mudança de comportamento também exige uma revisão do próprio conceito de naturalidade. O objetivo não é necessariamente usar menos recursos, mas entender quais intervenções fazem sentido para cada rosto e em que momento parar.

Essa discussão estará entre os temas da VIII Convenção Sul Brasileira de Medicina Estética, que acontece nos dias 25 e 26 de setembro, em Curitiba. Entre os palestrantes está o médico André de Campos Cerqueira, que apresenta a palestra “Como Utilizar Preenchimento com Bom Senso e Naturalidade?”. O especialista tem como premissa a preservação da individualidade entre os princípios de sua abordagem. Os tratamentos personalizados que oferece, são voltados a um resultado natural. Ele destaca que procedimentos devem buscar equilíbrio sem apagar características individuais.

O preenchimento precisa ter uma indicação, e não ser uma resposta automática a qualquer incômodo estético. Bom senso é entender proporção, anatomia e o conjunto do rosto. Naturalidade não é ausência de resultado; é conseguir um resultado que faça sentido naquela pessoa”, afirma Cerqueira.

A individualização também ajuda a explicar por que a lógica de “harmonizar” todas as áreas de um rosto vem sendo colocada em xeque. Se antes a ideia de equilíbrio facial frequentemente vinha acompanhada de intervenções em vários pontos, a avaliação passa a considerar também aquilo que não deve ser modificado.

Existe uma diferença importante entre tratar sinais do envelhecimento e tentar redesenhar uma pessoa. O envelhecimento envolve pele, gordura, músculos, ligamentos, estrutura óssea e características individuais. Não existe uma mesma receita capaz de responder a todos esses fatores em todos os pacientes”, diz Lima.

O “não” também faz parte da consulta
A busca por resultados discretos traz outra discussão para dentro dos consultórios: o limite entre atender ao desejo do paciente e reconhecer quando uma intervenção não deve ser realizada.

Segundo Lima, a banalização dos procedimentos contribuiu para a percepção de que qualquer demanda estética pode ser solucionada imediatamente. É justamente nesse ponto, afirma, que a avaliação médica ganha importância.

Há situações em que o melhor procedimento é não fazer o procedimento. Saber dizer ‘não’ também faz parte da prática médica. Se a indicação pode gerar exagero, descaracterizar o paciente ou simplesmente não trazer um benefício que justifique a intervenção, é preciso explicar isso com clareza”, afirma.

Para Cerqueira, o bom senso aplicado aos preenchimentos passa justamente pela leitura do conjunto, e não pelo tratamento isolado de uma região.

O paciente pode chegar pedindo volume em uma determinada área, mas a avaliação precisa ir além desse pedido. Preencher por preencher não significa harmonizar. Em alguns casos, preservar é uma decisão estética tão importante quanto intervir”, afirma.

Da transformação para a preservação
O movimento também sugere uma mudança no significado atribuído a um “bom resultado”. Se procedimentos muito perceptíveis já funcionaram como demonstração de transformação, a nova expectativa coloca a discrição em primeiro plano: parecer descansado, preservar expressões, suavizar mudanças do envelhecimento e continuar reconhecível.

Para Lima, porém, seria um erro transformar a naturalidade em apenas mais uma tendência estética a ser reproduzida.

Naturalidade não pode virar um novo padrão. Não existe um único tipo de rosto natural, assim como não existe uma única maneira correta de envelhecer. O avanço está justamente em sair da padronização e voltar a olhar para o indivíduo”, afirma.

O tema integra uma discussão mais ampla da VIII Convenção Sul Brasileira de Medicina Estética, que reunirá médicos de diferentes áreas para debates sobre técnicas, tecnologias, segurança, complicações e atualização científica. A programação inclui especialistas nacionais e internacionais e atividades voltadas à prática clínica.

Para Lima, a mudança de expectativa pode representar um amadurecimento na relação dos próprios pacientes com a estética. “Talvez o resultado mais sofisticado hoje seja justamente aquele sobre o qual ninguém pergunta ‘o que você fez?’. A pessoa continua parecendo ela mesma. Essa é uma diferença importante entre usar um procedimento para acompanhar o envelhecimento e usá-lo para perseguir um padrão”, conclui.

Serviço
VIII Convenção Sul Brasileira de Medicina Estética
Data: 25 e 26 de setembro de 2026
Local: Teatro UP Experience
Endereço: Rua Professor Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 – Curitiba - PR
Realização: Associação Brasileira de Medicina Estética (ABME)
Programação e informações da VIII Convenção Sul Brasileira de Medicina Estética

Sobre Eduardo Santos Lima
Médico formado pela Faculdade Evangélica do Paraná, com pós-graduação pelo ISBRAE, Eduardo Santos Lima tem 20 anos de atuação e preside nacionalmente a ABME. É membro do Conselho Superior da Sociedade Portuguesa de Medicina Estética, coordena cursos de pós-graduação médica e integra o Comitê Científico dos Congressos ASIME.

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